Índice de Artigos

Psicoterapia Integrativa

A Experiência Terapêutica

A Experiência Terapêutica de Grupo

Transtorno de Déficit de Atenção

Transtorno de Pânico

Radicais Livres Emocionais

Transtorno Bipolar do Humor


 

Rubens Mário Mazzini Rodrigues, MD 
Médico Psiquiatra - Porto Alegre - RS - CREMERS 9760


O PROCESSO DA PSICOTERAPIA INTEGRATIVA

            Assim como as pessoas e os relacionamentos são processos dinâmicos, assim também é o desenvolvimento da teoria, originada da mesma forma do processo dinâmico de teóricos individuais e do processo dinâmico de cada relacionamento terapêutico que orienta e informa determinada teoria. Então nós gostaríamos de aproveitar a oportunidade nesse workshop para falar sobre como a Psicoterapia Integrativa se desenvolveu e como nós a praticamos e pensamos sobre ela atualmente.

            O termo "integrativa" da Psicoterapia Integrativa possui diversos significados. Ele se refere ao processo de integração da personalidade: ajudar o cliente a assimilar e harmonizar os conteúdos de seus estados de ego, relaxar os mecanismos de defesa, renunciar ao seu roteiro de vida, e reengajar-se no mundo em pleno contato. Esse é o processo de tornar-se inteiro (total): pegar os aspectos alienados, desconectados e não resolvidos do ego e torná-los parte de um self coeso. Através da integração, se torna possível para as pessoas terem a coragem de encarar cada momento livre e abertamente, sem a proteção de opiniões, posições, atitudes ou expectativas pré-concebidas.

            "Integrativa" também se refere à integração da teoria, de agrupar à psicoterapia a abordagem fisiológica, comportamental, cognitiva, afetiva e sistêmica. Os conceitos são utilizados dentro de uma perspectiva de desenvolvimento humano na qual cada fase da vida apresenta tarefas desenvolvimentais distintas, necessidades sensíveis, crise e oportunidades para novos aprendizados. A Psicoterapia Integrativa leva em conta as diversas visões do funcionamento humano: psicodinâmica, centrada no cliente, cognitiva, comportamental, terapia de família, psicoterapia da gestalt, psicoterapia reichiana, teorias de relação objetal, psicanálise, psicologia do self e Análise Transacional. Cada uma provê um explicação válida do comportamento, e cada uma é incrementada quando seletivamente integrada com as outras. As intervenções psicoterápicas são baseadas em conhecimento validado por pesquisa do processo normal de desenvolvimento e teorias que descrevem os processos de defesa auto-protetores utilizados quando há interrupções no desenvolvimento normal. 

              O "ABC"

            As idéias preliminares da Psicoterapia Integrativa foram apresentadas por Richard Erskine em 1972 em palestras na Universidade de Illinois. Um resumo dessas idéias foi publicado no artigo, "O ABC da Psicoterapia Efetiva" (Erskine, 1975) e foi mais elaborado posteriormente no artigo, "Cura do Argumento" (Erskine, 1980). Alguns dos métodos clínicos que irão ser brevemente expostos aqui são apresentados transação-por-transação em "Integrative Psychotherapy in Action" (Erskine & Moursund,1988).

            O foco da integração estava em três dimensões primárias do funcionamento humano e, conseqüentemente, no foco do psicoterapeuta: cognitiva, afetiva e comportamental. As teorias cognitivas enfatizam o processo mental da pessoa e colocam o foco na questão "Por quê?" A abordagem cognitiva explica e oferece um modelo de entendimento. Por que temos os problemas que temos? Por que nossa mente funciona do modo que funciona? Baseia-se na presunção de que a psicoterapia é um processo intelectual e que, quando o paciente vem a entender por que se comporta ou pensa de uma determinada maneira, os conflitos envolvidos serão solucionados.  

            A abordagem comportamental é significativamente diferente da cognitiva, pois lida com a questão "O que?" A terapia comportamental descreve o que existe e tenta moldar o comportamento adequado. Qual é exatamente o problema? Que contingências moldaram o problema no passado e quais as mantêm no presente? Que mudanças são necessárias para reverter o sistema para produzir um novo comportamento? Como a terapia comportamental emergiu da psicologia experimental, é dada uma grande atenção às medidas que devem ser aplicadas para avaliar as mudanças feitas. A aplicação da terapia comportamental envolve um abandono da questão "Porquê?". O objetivo da terapia comportamental é identificar e reforçar os comportamentos desejados.

            Tanto a terapia cognitiva quanto a comportamental são significativamente diferentes de uma psicoterapia afetiva. Uma abordagem afetiva lida com a questão "Como?" Como a pessoa se sente? Aqui o foco é colocado no processo de experiência interior: como cada pessoa experimenta emocionalmente o que aconteceu. O foco principal não está no "por quê?" da terapia cognitiva nem no"O que?" da terapia comportamental, mas no "Como?" cada um vivencia a experiência no aqui e agora. Uma premissa básica na terapia afetiva é de que a pessoa está fora de contato com seus sentimentos. Presume-se que a remoção dos bloqueios às emoções e a expressão plena dos afetos reprimidos irá produzir um desfecho emocional capaz de proporcionar a seguir uma gama mais ampla de experiências afetivas.

            Em adição às dimensões afetivas, comportamentais e cognitivas, nós incluímos a dimensão fisiológica. À medida que foram desenvolvidas muitas teorias do tipo mente/corpo, inclusive as pesquisas em psiconeuroimunologia, tornou-se imperativo incluir um foco no corpo como um aspecto integral da psicoterapia. Distúrbios do afeto e da cognição podem afetar o corpo assim como disfunções fisiológicas podem causar mudanças comportamentais, afetivas e cognitivas.

            As bases fisiológicas, cognitivas e comportamentais do organismo humano são vistas de uma perspectiva sistêmica – um modelo cibernético no qual qualquer dimensão tem um efeito inter-relacionado sobre as outras dimensões. Assim como o indivíduo é afetado por outros em um sistema de trabalho ou familiar, ele, em contrapartida, contribui para a unicidade do sistema.  De um modo sistêmico similar, as dimensões observáveis e intra-psíquicas de um indivíduo são inerentemente influenciadas na função psicológica de um indivíduo. A perspectiva sistêmica leva à questão, "Qual é a função de um determinado comportamento, afeto, crença ou postura corporal no organismo humano como um todo?" O foco principal da psicoterapia integrativa está em avaliar se cada um desses domínios – afetivo, comportamental, cognitivo e fisiológico – está aberto ou fechado ao contato e na aplicação de métodos que aumentem o pleno contato. 

            Contato (vínculo)

            Uma das principais premissas da Psicoterapia Integrativa é a de que o contato constitui a experiência motivadora primária do comportamento humano. O contato é simultaneamente interno e externo: envolve a plena consciência das sensações, sentimentos, necessidades, atividade sensorimotora, pensamentos e memórias que ocorrem dentro do indivíduo e uma alternância para a plena consciência dos eventos externos tal como registrados por cada um dos órgãos sensoriais. Com contato interno e externo pleno as experiências são continuamente integradas. À medida que o indivíduo vai se envolvendo em contato pleno, as necessidades vão emergindo, sendo vivenciadas, e vão sendo atuadas em relação ao ambiente de um modo que é organicamente saudável. Quando uma necessidade emerge, é percebida e abandonada, a pessoa se move em direção à próxima experiência.  Quando o contato é interrompido, entretanto, as necessidades não são percebidas. Se a experiência de necessidade evocada não é encerrada naturalmente ela deve encontrar uma solução artificial.  Essas soluções artificiais são a substância de reações e decisões que podem se tornar cristalizadas. Elas são evidentes na desaprovação de afetos, comportamentos habituais estabelecem circuitos neurológicos inibitórios no corpo, e as crenças que limitam a espontaneidade e flexibilidade na solução de problemas relacionamentos inter-pessoais.

            Cada interrupção defensiva do contato impede a plena consciência. Essa fixação das interrupções de contato é a principal preocupação da Psicoterapia Integrativa.

            Relacionamentos

           Contato também se refere à qualidade das transações entre duas pessoas: a plena consciência do próprio self e do outro, um encontro sensível do outro e um autêntico reconhecimento do próprio self. Relacionamentos entre pessoas são construídos em contato, a motivação primária para estabelecer e manter relacionamentos.

            A Psicoterapia Integrativa faz uso de muitas perspectivas do funcionamento humano. Para uma teoria ser integrativa ela deve, também, descartar conceitos e idéias que não sejam teoricamente consistentes no sentido de formar um núcleo coeso de construtos capazes de informar e guiar o processo psicoterápico. O conceito mais simples e consistente na literatura psicológica e psicoterápica é o de relacionamento. Iniciando pela teoria do contato de Laura e Frederick Perls (1944; Perls, Hefferline & Goodman, 1951) passando pela premissa de Fairbam (1952) de que pessoas estão sempre a busca de relacionamentos desde o início e por toda a vida; pela ênfase dada por Sullivan (1953) ao contato interpessoal, pelas teorias do relacionamento de Winnicott (1965) e Guntrip (1971) e suas correspondentes aplicações clínicas; pelas teorias dos estados de ego e roteiros de Berne (1961, 1972); pelo foco dado por Roger (1951) na terapia centrada no cliente; pela aplicação do "inventário de empatia sustentada" deKohut (1971, 1977) e seus seguidores (Stolorow,Bradschaft e Atwood, 1977); pelas teorias do relacionamento desenvolvidas pelo Stone Center (Surrey, 1985; Miller, 1986; Berman, 1991), têm havido uma sucessão de professores, escritores e terapeutas que têm enfatizado que o relacionamento – tanto nos estágios iniciais quando ao longo da vida adulta – é a fonte daquilo que dá significado e validação ao self.

            A literatura sobre desenvolvimento humano também leva à premissa de que a autoconsciência e a auto-estima emergem através do contato nos relacionamentos. A teoria de Erikson (1950) sobre os estágios do desenvolvimento humano ao longo de todo o ciclo de vida, descreve a formação da identidade (ego) como um produto das relações inter-pessoais (verdade versus mentira, autonomia versus vergonha e dúvida, etc.). Mahler (1968, 1975) ao descrever os estágios do desenvolvimento do bebê coloca importância no relacionamento mãe-bebê. Bowlby (1969, 1973, 1980) enfatizou o significado do contato físico precoce, prolongado e afetuoso na criação de um núcleo visceral do qual emergem todas as experiências do ser (self). Quando esse contato não ocorre de acordo com as necessidades do bebê se forma uma defesa fisiológica contra a perda de contato, pungentemente descrito por Fraiberg em "Defesas Patológicas na Infância" (1983).

            A partir dos fundamentos teóricos do contato nos relacionamentos associados ao conceito de estados de ego de Berne (em particular o estado de ego Criança) surge um foco natural no desenvolvimento infantil. Os trabalhos de Daniel Stern (985) e John Bowlby (1969, 1973, 1980) são atualmente mais influentes, especialmente por causa de sua ênfase no vínculo precoce e de sua necessidade natural de relacionamento ao longo da vida. Baseado nessa pesquisa sobre crianças, Stern delineou um sistema de compreensão do desenvolvimento da autoconsciência (sense of self) a qual emerge de quatro domínios da conexão afetiva: conexão emergente, conexão nuclear, conexão intersubjetiva e conexão verbal. No momento em que consideramos esta visão da pessoa em desenvolvimento em nossa prática psicoterápica, nós adotamos uma atitude de profundo apreço pela vitalidade e construção ativa de algo que é parte essencial de quem o nosso cliente é. Vendo nosso cliente de uma perspectiva que coloca o olhar simultaneamente no que uma criança necessita e em como ele/ela processa suas experiências à medida que se processa esse vir a ser em andamento da vida (being on-going life), nós usamos nosso próprio ser de uma forma direta para assistir ao processo de desenvolvimento e integração. O que é freqüentemente significante em psicoterapia é o processo de sintonização (attunement), não apenas a pensamentos, sentimentos, comportamentos ou sensações físicas isoladas, mas também ao que Stern chama de "afetos vitais" (vitality affects), de modo que nós tentamos criar uma experiência de conexão afetiva íntegra (unbroken feeling-connectedness). O senso de ser e o senso de conexão que se desenvolve parece ser crucial ao processo de cura, particularmente quando houve traumas específicos na vida do cliente, e ao processo de integração e inteireza (wholenness) quando aspectos do ser (self) foram impedidos ou negados por causa da falência do contato no relacionamento.

             Constructos Psicológicos

            A Psicoterapia Integrativa correlaciona construtos de muitas escolas teóricas diferentes resultando em uma única organização de idéias teóricas e a seus correspondentes métodos de intervenção clínica. Os conceitos de contato no relacionamento, estados de ego e roteiro de vida são centrais à nossa teoria integrativa.

            Estados de Ego e Transferência

            O conceito original de estados de ego de Eric Berne (1961) oferece um construto genérico que unifica muitas idéias teóricas (Erskine,1987, 1988). Berne definiu o estado de ego Criança como um estado de ego arcaico que consiste na fixação de estágios precoces do desenvolvimento; tais como "resquícios da própria infância do indivíduo" (1961, p.77). O estado de ego Criança é a personalidade inteira de uma pessoa quando ela se encontra em um estágio inicial do desenvolvimento (Berne, 1961; 1964). Quando está funcionando no estado de ego Criança a pessoa percebe suas necessidades e sensações internas e o mundo externo como se ela estivesse em um estágio precoce do desenvolvimento. Isso inclui as necessidades, desejos, urgências, se sensações; mecanismos de defesa; processo de pensamento, percepções, sentimentos e comportamentos da fase do desenvolvimento onde a fixação ocorreu. A fixação do estado de ego Criança ocorreu quando as necessidades críticas da infância por contato não foram atendidas e as defesas utilizadas pela criança contra o desconforto das necessidades não atendidas se tornam habituais.

            O estado do ego Pai é a manifestação da introjeção das personalidades de pessoas reais conforme eram percebidas pela criança no tempo de introjeção (Loria, 1988). A introjeção é um mecanismo de defesa (incluindo desaprovação, negação e repressão) freqüentemente utilizado quando há a falta de um contato psicológico pleno entre a criança e os adultos responsáveis por suas necessidades psicológicas. Internalizando a figura parental com o qual há o conflito, o conflito passa a fazer parte do self e a ser experimentado internamente ao invés de com aquela figura parental tão necessária. A função da introjeção é criar a ilusão de manutenção do relacionamento, mas às expensas de uma perda do self.

            Conteúdos do estado de ego Pai podem ser introjetados a qualquer momento ao longo da vida. Se não forem reexaminados no processo de desenvolvimento posterior permanecem não assimilados ou não integrados no estado de ego Adulto. O estado de ego Pai constitui uma peça alheia (alien) da personalidade, embutida no ego e experimentada fenomelogicamente como se fosse própria, mas, na verdade, forma uma personalidade adotada, potencialmente capaz de produzir influência intra-psíquica sobre o estado de ego Criança.

            O estado de ego Adulto consiste no desenvolvimento moral, cognitivo e emocional atual e coerente com a idade, incluindo a capacidade de ser criativo e a capacidade de engajamento em relacionamentos significativos de contato pleno. O estado de ego adulto agrega e integra o que está ocorrendo momento-a-momento interna e externamente, experiências passadas e seus efeitos resultantes e as influências psicológicas e identificações com pessoas significativas da vida de cada um.

            As teorias de relação, vínculo, regressão e internalização de objeto (Bolles, 1977, 1987; Fairbairn, 1952; Guntrip, 1971; Winnicott, 1965) torna-se mais significativa quando integrada com os conceitos de estado de ego Criança como fixações de um período de desenvolvimento precoce e do estado de ego Pai como manifestações de introjeções da personalidade de pessoas reais como percebidas pela criança no tempo da introjeção (Erskine, 1987, 1988 1991).

            O conceito psicanalítico função objetal da psicologia do ser (Kohut, 1971; 1977) e o conceito da Terapia da Gestalt de interrupção defensiva do contato (Perls, Hefferline & Goodman, 1951) podem ser combinados dentro de uma teoria de estados de ego que não se tornaram integrados ao estado de ego Adulto (Erskine, 1991).

            A teoria de estados de ego também serve para definir e unificar o conceito de transferência da psicanálise tradicional (Brenner, 1979; Friedman, 1969; Langs, 1976) e o de transações não-transferenciais (Berne, 1961; Greenson, 1967; Lipton, 1977). Dentro da perspectiva da Psicoterapia Integrativa a transferência pode ser vista como:

            1) o meio pelo qual o cliente pode descrever seu passado, as necessidades desenvolvimentais que tenham sido frustradas e as defesas que foram erigidas para compensá-las;

            2) a resistência à plena rememoração e, paradoxalmente, uma encenação desconectada das experiências infantis;

            3) a expressão de um conflito intra-psíquico e o desejo de alcançar intimidade nos relacionamentos; ou

            4) a expressão do esforço psicológico universal para organizar a experiência e criar significado.

            A visão integrativa da transferência oferece a base para uma contínua valorização da comunicação intrínseca na transferência assim como um reconhecimento e respeito ao fato de que as transações podem ser não-transferenciais.

            Roteiro de Vida

            O conceito de roteiro serve como o terceiro construto unificador e descreve como cada um de nós, enquanto e bebês crianças, começamos a desenvolver as reações e expectativas que definem para nós o tipo de mundo em que vivemos e o tipo de pessoa que somos. Essas respostas, fisicamente codificadas, emocional e cognitivamente, nos eventos bioquímicos e tecidos do corpo, na forma de atitudes, valores e crenças, constituem uma matriz que delineia o caminho em que vivemos nossas vidas (Erskine, 1980). 

            Eric Berne chamou essa matriz de "roteiro" (argumento ou script) (1961, 1972) e Fritz Perls, inovador da Terapia da Gestalt (1944), descreveu-o como um padrão repetitivo e autocumprido que ele chamou de "roteiro de vida" (1975).

            Alfred Adler referiu-se a isso como "estilo de vida" (Ansbacher & Ansbacher, 1956); Sigmund Freud usou a expressão "compulsão à repetição" para descrever fenômeno similar (1923/1961); e escritores psicanalíticos recentes têm se referido ao um padrão desenvolvimental pré-formado como "fantasia inconsciente" (Arlow, 1969b, p. 8) e como "schemata" (Arlow, 1969a, p. 29; Slep, 1987). Na psicologia psicanalítica do ser a expressão "sistema do ser" (self system) é utilizada para se referir a padrões recorrentes de baixa auto-estima e interações de autodefesa (Basch, 1988, p. 100) que são resultado de "princípios inconscientes de organização", denominado de "inconsciente pré-reflexivo" (Stolorow & Atwood, 1989, p. 373). Stern (1985), analisando pesquisas no desenvolvimento infantil conceituou esses padrões aprendidos como "representações de interações que foram generalizadas (RIG)" (p. 97).

            Literatura psicoterápica recente tem descrito tais matrizes como "teoria da auto-confirmação" (Andrews, 1988;  1989) e como um sistema de auto-reforço ou "plano de auto-proteção" relacionado com o "sistema de roteiro" (script system) (Erskine & Moursund, 1988). O sistema de roteiro é dividido em três componentes primários: Crenças do Roteiro, Manifestações do Roteiro e Experiências Reforçantes.

            Crenças do Roteiro: Em essência, o roteiro responde a questão, "O que faz uma pessoa como eu faz em um mundo como esse com uma pessoa como você?" Tanto as respostas conscientes quanto inconscientes dessa pergunta formam as Crenças do Roteiro – a compilação das reações de sobrevivência, RIGs, decisões, conclusões, defesas e reforços que ocorrem no processo de crescimento. As Crenças do Roteiro podem ser distribuídas em três categorias: crenças sobre o Eu, crenças sobre os outros e crenças sobre a qualidade de vida. Uma vez adotadas, as crenças do roteiro passam a influenciar todo estímulo (interno ou externo) que se apresenta: a forma como é interpretado e se ele deve ou não ser atuado. Elas se tornam as profecias autoconfirmadoras pelas quais as expectativas da pessoa são inevitavelmente tidas como verdadeiras  (Erskine & Zalcman, 1979).

            As crenças do roteiro são mantidas no sentido de: a) evitar re-experimentar necessidades insatisfeitas e os sentimentos correspondentes que foram suprimidos no momento da formação do roteiro; e b) para providenciar um modelo previsível de vida e relacionamentos interpessoais (Erskine & Moursund, 1988). A previsão é especialmente importante quando há uma crise ou trauma. Apesar de o roteiro ser freqüentemente destrutivo, ele oferece equilíbrio emocional ou homeostase: ele dá a ilusão da previsibilidade (Perls, 1944; Bary & Hufford, 1990). Qualquer perturbação no modelo preditivo produz ansiedade: para evitar tal desconforto, nós organizamos nossas percepções e experiências de modo a manter nossas crenças do roteiro (Erskine, 1981).

            Manifestações do Roteiro: Quando é submetida ao estresse ou quando as necessidades não são atendidas na vida adulta, a pessoas tendem a se engajar em comportamentos confirmadores de crenças do roteiro. Esses comportamentos são chamados de Manifestações do Roteiro e podem incluir qualquer comportamento observável (escolha de palavras, frases padronizadas, tons de voz, padrões emocionais, gestos, posturas e movimentos corporais) que são apresentações diretas de crenças do roteiro e de necessidades ou sentimentos reprimidos (processo intra-psíquico). Uma pessoa pode agir de uma forma determinada por crenças do roteiro, tais como dizer "Eu não sei" quando a crença é "Eu sou burro(a)". Ou ela pode agir de forma a se defender socialmente de crenças do roteiro, como, por exemplo, ser excelente na escola e adquirindo diversos títulos de forma a evitar que a crença "Eu sou burro(a)" seja descoberta por outros.

            Os indivíduos freqüentemente têm reações psicológicas adicionais ou substitutas de comportamentos manifestos [epifenômenos do epi-argumento] que constituem a matriz (display) do roteiro. Essas experiências internas não são prontamente observáveis; no entanto, a pessoa pode receber um aviso interno: desconforto abdominal, tensão muscular, dores de cabeça, frio na espinha, colite, ou qualquer uma de uma miríade de respostas somáticas às crenças do roteiro [somatizações]. Pessoas que têm muitos desconfortos somáticos ou doenças freqüentes acreditam que "algo está errado comigo" e usam sintomas físicos para reforçar a crença – uma defesa cognitiva que serve para manter o sistema do roteiro intacto.

         As matrizes do roteiro também incluem fantasias nas quais o indivíduo imagina comportamentos, tanto próprios quanto de outros, que oferecem suporte a crenças do roteiro. Esses comportamentos fantasiados funcionam tão efetivamente quanto comportamentos do epi-argumento (overt behaviours) para reforçar as crenças do roteiro - em certas circunstâncias, até mesmo mais eficazmente. Eles atuam sobre o sistema exatamente como se fossem eventos que realmente aconteceram.

         Experiências Reforçadoras: Qualquer manifestação do roteiro pode resultar em uma experiência reforçadoras – um acontecimento subseqüente que "prova" que a crença do roteiro é válida e, então, justifica o comportamento do roteiro. As experiências reforçadoras são uma coleção de memórias emocionais, reais ou imaginadas, do próprio comportamento ou de outras pessoas; o retorno de uma vivência corporal interna; ou reminiscências recalcadas de fantasias, sonhos ou alucinações. A experiências reforçadoras servem como um mecanismo de retro-alimentação (feedback) para reforçar crenças do roteiro. Somente aquelas memórias que dão suporte à crença do roteiro são aceitas e retidas. Memórias que negam as crenças do roteiro tendem a ser rejeitadas ou esquecidas porque elas poderiam desafiar a crença e o sistema defensivo como um todo.

            O conjunto de crenças do roteiro de cada pessoa constitui uma estrutura através da qual o self, os outros e a qualidade de vida são percebidos. De forma a se engajar na matriz do roteiro os indivíduos precisam descartar outras opções; eles freqüentemente irão manter aquela cujo comportamento representa o modo "natural" ou "único" pelo qual eles são capazes de responder. Quando usados socialmente, as manifestações do roteiro tendem a produzir experiências inter-pessoais as quais, por sua vez, são governadas por e contribuem para o reforço das crenças do roteiro.

            Logo, o sistema de roteiro de cada pessoa é distorcido e auto-reforçado através da operação combinada de seus três subsistemas inter-relacionados e interdependentes: crenças do roteiro, manifestações do roteiro e experiências reforçadoras. O sistema do roteiro serve como uma defesa contra a conscientização de experiências passadas, necessidades e emoções relacionadas enquanto são, simultaneamente, repetições do passado.

            Princípios e Domínios

            Dois princípios guiam toda a Psicoterapia Integrativa. O primeiro é o nosso comprometimento com a mudança de vida positiva. A Psicoterapia Integrativa pretende fazer mais do que ensinar ao cliente alguns novos comportamentos ou algumas habilidades destinadas a ajudá-lo a atravessar uma crise atual. Ela deve afetar o roteiro do cliente de alguma forma. Sem mudança do roteiro a terapia irá oferecer apenas um alívio temporário. Nós queremos ajudar cada cliente a integrar suas perspectivas fixadas em flexíveis e torná-lo aberto à aceitação de aprender e crescer com cada experiência.

            O segundo princípio guia é o de respeitar a integridade do cliente. Através do respeito, cordialidade, compaixão e contato nós estabelecemos uma presença pessoal e permitimos um relacionamento interpessoal que oferece a afirmação da integridade do paciente. Essa respeitosidade pode ser melhor descrita como um convite constante ao contato interpessoal entre cliente e terapeuta, com suporte simultâneo ao cliente para entrar em contato com a sua experiência interna e receber reconhecimento para essa experiência.

            As quatro dimensões do funcionamento humano que foram delineadas acima – afetiva, comportamental, cognitiva e fisiológica – também indicam os domínios no qual ocorre o trabalho do terapeuta. O trabalho cognitivo tem lugar primariamente através da aliança terapêutica entre os estados de ego Adulto do cliente e do terapeuta. Isto inclui coisas como estabelecer contratos de mudança, planejar estratégias para a mudança e buscar o insight de velhos padrões.

            O trabalho comportamental envolve engajar-se com o cliente em novos comportamentos que se opõe ao velho sistema do roteiro e que irão evocar respostas dos outros que sejam inconsistentes coma coleção de memórias reforçadoras do roteiro antigo. Às vezes estabelecemos "temas de casa" de modo que a experiência terapêutica possa se estender além da sessão formal de terapia e de modo a convidar o paciente a se comportar de modo diferente durante as sessões não apenas conosco como terapeutas, mas também com os membros do grupo terapêutico e em fantasia com aquelas pessoas que o(a) ajudaram a construir e manter o roteiro de vida ao longo dos anos.

            O trabalho afetivo, enquanto ele possa envolver sentimentos atuais, está mais propenso a envolver experiências arcaicas e/ou introjetadas. Isso freqüentemente é vivenciado através do retorno à idade na qual as introjeções originais ocorreram ou em que as decisões do roteiro foram tomadas ou, ainda, quando aquelas introjeções ou decisões foram fortemente reforçadas. Nesse estado regressivo os clientes pensam e sentem como uma versão mais jovem de si mesmos, exibindo muitas das atitudes e decisões que vão na direção da criação de seus roteiros de vida. Nessa suposta regressão há uma oportunidade para expressar sentimentos, necessidades e desejos que tenham sido reprimidos e vivenciar um contato que antes nunca tinha sido possível. As decisões inibidoras de anos atrás são intensamente re-vivenciadas e podem ser reavaliadas e re-decididas.

            A quarta via principal para o roteiro é a fisiológica: o trabalho direto com as estruturas corporais. Como salientou Wilhem Reich (1945), as pessoas vivem fora de suas estruturas de caráter em seus corpos físicos. As decisões do roteiro de vida inevitavelmente envolvem alguma distorção do contato e tais distorções freqüentemente trazem com elas algum grau de tensão muscular. Ao longo do tempo as tensões se tornam habituais e são eventualmente refletidas na estrutura corporal atual. Trabalhando diretamente com essa estrutura através da massagem muscular, alterando padrões de respiração e/ou encorajando ou inibindo movimentos, nós podemos freqüentemente ajudar o cliente a acessar antigas memórias e padrões e experimentar a possibilidade de novas opções.

            Nós raramente limitamos o trabalho a um único domínio; na maioria das vezes o trabalho envolve vários ou todos eles. Esse é um outro aspecto da natureza integrativa de nosso trabalho. Quando uma pessoa não se defende contra sua própria experiência interior ela está apta a integrar o seu funcionamento psicológico em todos os domínios, acatando, processando e enviando mensagens através de todas as quatro vias e transferindo facilmente as informações de uma para outra.

            Uma outra maneira de ver a Psicoterapia Integrativa é em termos do estado de ego primário em que o trabalho está focado. Um dado seguimento pode primariamente lidar com a Criança, com o Pai, com o diálogo Pai-Criança, ou com o estado de ego Adulto. O trabalho com o estado de ego criança usualmente inicia com algum tipo de convite ao cliente a relembrar ou reviver uma antiga experiência da infância. No estado de ego criança o cliente tem acesso direto a velhas experiências e está apto a reviver aquelas memórias, as quais podem ser reais ou representativas. Através do processo de rememorar e re-vivenciar os sentimentos e necessidades daquele tempo, às vezes expressando o que estava não-expresso e tendo aquelas necessidades ou sentimentos atendidos, a antiga experiência cristalizada pode se tornar integrada. O convite pode ser algo como "Volte ao tempo em que se sentiu dessa forma anteriormente", ou pode envolver a invocação de pistas visuais, auditivas ou cinestésicas que auxiliam o cliente a mover-se em direção às antigas memórias através de uma série de trocas verbais durante as quais o estado de ego Criança progressivamente evocado.

            Uma vez que o cliente entra na experiência necessária o terapeuta está apto a ajudar a Criança (como Adulto observando) para descobrir o modo como o roteiro de vida se formou e se manifestou ao longo dos anos. O cliente relembra ou revive o trauma antigo, as antigas necessidades não atendidas e re-vivencia o processo de reação ou decisão através do qual criou uma couraça defensiva artificial para lidar com essas necessidades. Essa re-criação de um antigo cenário é ao mesmo tempo a mesma que a experiência original (os sentimentos, desejos e necessidades são sentidos novamente, juntamente com o sofrimento que leva àquela resolução) e diferente da original, no sentido de que a presença do estado de ego Adulto observador e do suporte do terapeuta criam novos recursos e opções que antes não estavam disponíveis. São esses novos recursos que tornam possível uma decisão diferente no momento presente (Goulding & Goulding, 1979). Como o estar no mundo é literalmente experimentado de uma maneira diferente na regressão terapêutica, fazer uma mudança na reação de sobrevivência ou decisão arcaica pode quebrar o velho padrão do roteiro de vida. O cliente vê, ouve e sente a si mesmo e ao mundo de uma nova maneira e, conseqüentemente, pode responder a si mesmo e aos outros de uma nova forma. Algumas vezes, quando não há memórias ou traumas específicos, a Criança é integrada através do contato consistente com o terapeuta sintonizado, o qual responde às necessidades do cliente de uma maneira compreensiva, valorizadora e normatizante. Tal contato no relacionamento providencia um espaço terapêutico tal que o paciente possa sair desse contato interrompendo defesas e renunciando às crenças do antigo roteiro. Essa é a essência da integração do estado de ego Criança com o estado de ego Adulto.

           Quando o padrão do roteiro está primariamente ligado a um estado de ego Pai internamente influente (introjetado), o cliente pode ser convidado a catexar (investir energia) esse Pai: para "ser" Mamãe ou Papai e entrar em uma conversação com o terapeuta como Mamãe ou Papai teria feito (McNeel, 1974). O terapeuta a princípio se familiariza com esse Pai introjetado como se uma pessoa nova e desconhecida tivesse realmente adentrado o recinto. À medida que o estado de ego Pai começa a experimentar e responder à presença do terapeuta a qualidade da interação gradualmente muda para um padrão mais terapêutico e o Pai é encorajado a lidar com suas próprias produções. Isso funciona através dos conteúdos do roteiro de vida da pessoa parental que o cliente trouxe à tona como se fossem os seus próprios. Muitos dos métodos usados para tratar o estado de ego Criança podem ser utilizados aqui se o Pai precisa lidar com experiências reprimidas. Ou o terapeuta pode intervir em ajuda à criança envolvida – o cliente – para advogar por ele e prover proteção se o Pai introjetado é irredutível ou continua a ser destrutivo de alguma forma. Assim que o Pai começa a responder aos desafios ao seu padrão de roteiro de vida, a introjeção perde sua qualidade de ligação (bind) compulsiva. Os padrões de pensamento, atitudes, respostas emocionais, defesas e padrões de comportamento que foram introjetados a partir de figuras significativas não mais permanecem como um estado não assimilado ou hetero-psíquico do ego, mas são descartados como estados de ego separados ["encostos"] e integrados a uma neopsique desperta ou ego Adulto(Erskine & Moursund, 1988).

           Os padrões de roteiro de vida mais desafiadores e problemáticos são mantidos tanto pelo estado de ego Pai quanto Criança – isto é, eles contêm elementos tanto das decisões da Criança e introjeções do Pai. Para facilitar a plena integração, o trabalho terapêutico em determinado momento precisa envolver tanto os estados de ego Pai quanto Criança, em seqüência (quando o terapeuta lida primeiro com o Pai, encerra a sessão e, então, ajuda a Criança a explorar e responder à nova informação) ou na forma de um diálogo entre os estados de ego Pai e Criança.

            Nosso trabalho também incorpora uma interação direta com o estado de ego Adulto do cliente. Isto é particularmente importante para fazer contato, clarificar objetivos e servir como um observador e aliado durante o trabalho com o estado de ego Pai ou Criança. Para alguns clientes a psicoterapia não requer um foco em mecanismos de defesa fixados ou regressão a traumas infantis mal resolvidos, nem uma dispensa de introjeções, mas sim a consideração do ciclo de vida adulto. Nós avaliamos o que o cliente apresenta à luz das transições de desenvolvimentais, crises, tarefas relacionadas à idade e experiências existenciais. Quando as transições do ciclo de vida e crises existenciais são respeitadas como significativas e o cliente tem uma oportunidade para explorar suas emoções, pensamentos, ideais, crenças adotadas e trazer à tona suas possibilidades, surge um senso de significado e propósito na vida e seus eventos. 

            Métodos

            Inventário/ Invetigação

            O inventário é um foco contínuo na psicoterapia baseada no relacionamento e orientada ao contato. Ele começa com o pressuposto de que o terapeuta não sabe nada a respeito da experiência do cliente e, entretanto, deve se esforçar continuamente para compreender o significado subjetivo do processo intra-psíquico e comportamento do cliente. Através de uma investigação respeitosa de sua experiência fenomenológica o cliente se torna progressivamente consciente de suas necessidades, sentimentos e comportamentos antigos e atuais. É com a plena conscientização e ausência de defesas internas que as necessidades e sentimentos que foram fixados devido a experiências passadas podem ser integradas em um estado de ego Adulto plenamente operante.

            Deve ser enfatizado que o processo de investigação é tão ou mais importante do que seu conteúdo. A investigação do terapeuta deve empatizar com a experiência subjetiva do cliente para ser efetiva em descobrir e revelar os fenômenos internos (sensações físicas, sentimentos, pensamentos, significados, crenças, decisões, expectativas e memórias) e encontrar os interruptores internos e externos para o contato (conexão).

            O inventário começa com um interesse genuíno na experiência subjetiva e construção de significado do cliente. Ele prossegue com questões do terapeuta sobre o que o cliente está sentindo, como ele percebe a si mesmo os outros e (inclusive o psicoterapeuta) e a que conclusões ele chega. Ele deve continuar com questionamento sobre a história e sobre quando uma experiência ocorreu e quem foi significante na vida da pessoa. O inquérito é utilizado na fase preparatória da terapia para aumentar a consciência do cliente sobre como e quando ele interrompeu o contato.

            É essencial que o terapeuta entenda cada necessidade única do cliente de contar com uma outra pessoa estabilizadora, validadora e reparadora para assumir algumas das funções relacionais com as quais o cliente está tentando lidar sozinho. Uma relação terapêutica orientada ao contato requer que o terapeuta esteja sintonizado com essas necessidades relacionais e esteja envolvido, através de validação empática de sentimentos e necessidades além de pelo provimento de segurança e suporte.

            Sintonia (attunement)

            A sintonia é um processo de duas partes: o senso de estar plenamente consciente das sensações, necessidades e sentimentos da outra pessoa e a comunicação dessa consciência à outra pessoa. Mais do que apenas compreender, a sintonia é uma percepção emocional e cinestésica do outro; conhecer sua experiência através de metaforicamente sentir-se em sua pele. A sintonia efetiva requer, ainda, que o terapeuta se mantenha consciente do limite (fronteira) entre cliente e terapeuta.

            A comunicação da sintonia valida as necessidades e sentimentos do cliente e cria os alicerces para a reparação das falhas dos relacionamentos prévios. A sintonia é demonstrada pelo que dizemos, tal como "isso dói", "você parece assustado(a)", ou "você precisa de alguém para estar lá com você". Ela é mais freqüentemente comunicada pelos movimentos faciais e corporais do terapeuta que sinalizam ao cliente que o seu afeto existe e é percebido pelo terapeuta, que ele é significativo e que causa um impacto no terapeuta.

            A sintonia é freqüentemente experimentada pelo cliente quando o terapeuta gentilmente se move através das defesas que o tem protegido da conscientização das falhas relacionais e as necessidades e sentimentos a elas relacionadas, fazendo contato com partes a muito esquecidas do estado de ego Criança. Ao longo do tempo, isso resulta na diminuição nas interrupções externas ao contato e uma correspondente dissolução das defesas internas. As necessidades e sentimentos podem, então, ser incrivelmente expressas com o conforto e segurança de que irão encontrar uma resposta empática. Freqüentemente a sintonia oferece uma sensação de segurança e estabilidade que habilita o cliente a começar a relembrar e a suportar uma regressão à experiência infantil, tornando-se plenamente consciente da dor dos traumas, da falha dos relacionamentos e do self perdido.

            Não é incomum, no entanto, que a comunicação de sintonia pelo terapeuta encontre uma reação de raiva intensa, afastamento ou até mesmo dissociação [reação terapêutica negativa]. A justaposição da sintonia pelo terapeuta e da memória da falta de sintonia nas relações significativas prévias produzem intensas memórias emocionais de necessidades não atendidas. Ao invés de vivenciar aqueles sentimentos o cliente pode reagir defensivamente com medo ou raiva em relação ao contato oferecido pelo terapeuta. O contraste entre o contato disponível com o terapeuta e a falta de contato na sua vida pregressa é freqüentemente vai além do que os clientes podem suportar, então eles se defendem contra o contato atual para evitar as memórias emocionais.

            É importante que o terapeuta trabalhe sensitivamente com a justaposição. O afeto e comportamento expresso pelo cliente é uma tentativa de evitar as memórias emocionais. Terapeutas que não levam em conta as reações emocionais defensivas podem equivocadamente identificar a reação à justaposição como transferência negativa e/ou vivenciar intensos sentimentos de contra-transferência em resposta à evitação do cliente ao contato interpessoal. Este conceito ajuda o terapeuta a entender a intensa dificuldade que o cliente tem com o contraste entre a oferta de contato do terapeuta no presente e a consciência de que as necessidades de relações de contato pleno não foram preenchidas no passado [ou pior, ainda não podem ser estabelecidas com as relações significativas do presente].

            Reações de justaposição podem sinalizar que o terapeuta está indo mais rápido do que o paciente é capaz de assimilar. Freqüentemente é sábio retornar ao contrato terapêutico e clarificar o propósito da terapia. Explicar o conceito de justaposição pode ser benéfico em algumas situações. Mais freqüentemente uma cuidadosa investigação da experiência fenomenológica da atual interrupção do contato irá revelar memórias emocionais de desapontamento e relacionamentos sofridos.

            Com a dissolução da interrupção do contato, o relacionamento oferecido pelo terapeuta oportuniza ao cliente um sentimento de validação, cuidado, suporte e compreensão – "aí há alguém com quem posso contar". Este envolvimento do terapeuta é um item essencial para a total dissolução das defesas, resolução e integração dos traumas e relações mal resolvidas.

            Envolvimento

            O envolvimento é melhor entendido através da percepção do cliente – uma sensação de que o terapeuta está em pleno contato. Ele evolui a partir investigação empática do terapeuta sobre a experiência do cliente e se desenvolve através da sintonia do terapeuta com os afetos e validação das necessidades do cliente. O envolvimento resulta do fato de o terapeuta estar plenamente presente com e para a pessoa, de um modo que é apropriado para o nível desenvolvimental de funcionamento do cliente. Isso inclui um interesse genuíno no mundo intrapsíquico e interpessoal do cliente e uma comunicação deste interesse através da atenção, questionamento e paciência.

            O envolvimento começa com o compromisso do terapeuta com o bem-estar do cliente e respeito com sua experiência fenomenológica. O pleno contato se torna possível quando o cliente percebe que o terapeuta: 1) respeita cada defesa; 2) se mantém sintonizado a suas necessidades e afetos; 3) é sensível ao funcionamento psicológico nos estágios relevantes do desenvolvimento; e 4) está interessado em compreender a sua forma de construção de significado.

            O envolvimento terapêutico que enfatiza aceitação, validação, normalização e presença, diminui o desconforto próprio do processo defensivo. Esse engajamento permite que sentimentos previamente desaprovados e experiências negadas venham plenamente à consciência. A aceitação dos sentimento do cliente por parte do terapeuta inicia-se com a sintonia com seus afetos, mesmo se eles não são expressados. Através da sensibilidade à expressão fisiológica das emoções o terapeuta pode guiar o cliente no sentido de expressar seus sentimentos ou de aceitar que sentimentos ou sensações físicas podem fazer parte de sua memória – e, até mesmo, a única memória disponível. Em algumas situações a criança podia ser muito pequena para que tenha memórias verbais e evocáveis. Em muitos casos de falha de relacionamento os sentimentos da pessoa não são aceitos é pode ser necessário, na psicoterapia, ajudar a pessoa a obter um vocabulário e verbalizar esses sentimentos. A aceitação das sensações físicas e dos afetos ajuda o cliente a manifestar sua própria experiência fenomenológica. A aceitação inclui um outro receptivo que reconhece e comunica a existência de movimentos não-verbais, tensão muscular, afeto ou até mesmo fantasias.

            Há vezes na vida do cliente que seus sentimentos foram aceitos, as não foram validados. A validação comunica ao cliente que seus afetos ou sensações físicas são relativos a algo significante em suas experiências. Validar é estabelecer uma ligação entre causa e efeito [aceitar e ajudar a aceitar que o sentimento é ou foi justo nas circunstâncias]. A validação diminui a possibilidade de desconforto do cliente com afetos, sensações físicas, memórias e sonhos significativos. Ela oferece ao cliente um valor aumentado de sua experiência fenomenológica e, conseqüentemente, um aumento do sentimento de auto-estima.

            Normalização é despatologizar a definição por si mesmo ou por outros da experiência interna do cliente e suas tentativas comportamentais de lidar com elas. Pode ser essencial para o terapeuta contestar mensagens parentais ou culturais do tipo "Você está louco por estar assustado com isso" por "Qualquer um ficaria assustado nessa situação". Muitas reminiscências, fantasias bizarras, pesadelos, confusão, pânico, defesas, são fenômenos normais na tentativa de lidar com situações anormais. É imperativo que o terapeuta comunique que a experiência do cliente é uma reação defensiva normal, não patológica.

            A presença é provida através de uma resposta empática sustentada pelo terapeuta tanto às expressões verbais quanto não verbais do cliente. Ela ocorre quando o comportamento e comunicação do terapeuta, o tempo todo, respeita e incrementa a integridade do cliente. Presença inclui a receptividade do terapeuta aos afetos do cliente – ser impactado por suas emoções, se emocionar e ainda se manter presente diante do impacto de suas emoções, não ficar ansioso, deprimido ou irado. Presença é uma expressão do pleno contato interno e externo do psicoterapeuta. Ela comunica a responsabilidade, confiabilidade e disponibilidade do psicoterapeuta.

            O envolvimento terapêutico é mantido pela constante vigilância do terapeuta para oferecer um ambiente e um relacionamento de confiança e segurança. É necessário que o terapeuta esteja constantemente sintonizado à habilidade do cliente a tolerar a emergência consciente de experiências passadas de modo que ele não se sinta sobrecarregado novamente na terapia como ele pode ter sido em experiências prévias. Quando a pesquisa da experiência fenomenológica do cliente e a regressão terapêutica ocorrem em um ambiente calmo e acolhedor, as defesas fixadas mais facilmente relaxadas e as necessidades e sentimentos das experiências passadas podem ser integradas.

            O envolvimento do psicoterapeuta através de transações que reconhecem, validam e normalizam as experiências fenomenológicas do paciente e sustenta uma presença empática promove uma potência terapêutica que permite ao cliente depender do relacionamento com o psicoterapeuta de forma segura. [estabelecimento de uma aliança terapêutica baseada em transferência positiva] A potência é o resultado de ligações que comunicam ao cliente que o terapeuta está plenamente envolvido em seu bem estar. Reconhecimento, validação e normalização providenciam ao cliente a permissão para conhecer seus próprios sentimentos, valorizar a significância de seus afetos, e relacioná-los a eventos atuais ou passados. Porém, tal permissão terapêutica para diminuir as defesas, para revelar suas sensações físicas, sentimentos e memórias, deve vir apenas depois que o cliente experimenta segurança e proteção no ambiente terapêutico. Tal proteção terapêutica pode ser adequadamente providenciada apenas após haver uma completa avaliação da autopunição intra-psíquica e de o cliente ter um sentimento de segurança de que o terapeuta está consistentemente comprometido com o seu bem estar.  A punição intra-psíquica envolve a percepção infantil de perda de ligação, vergonha ou ameaça de retribuição. Intervenções protetoras podem incluir suportar dependências regressivas, oferecer um ambiente seguro e confiável no qual o cliente possa redescobrir o que foi perdido em consciência e avançar na terapia até que as experiências tenham sido plenamente integradas.

           Há momentos em que o cliente irá tentar eliciar sintonia e compreensão através do acting out de um problema que ele não pode expressar de outra forma. Tais expressões são ao mesmo tempo uma manifestação defensiva de memórias emocionais e, também, uma tentativa de comunicar seus conflitos internos. Explanações ou confrontações podem intensificar as defesas, tornando as necessidades e sentimentos menos acessíveis à consciência. Envolvimento inclui uma investigação gentil e respeitosa da experiência interna do acting out. O interesse genuíno e respeitoso do terapeuta na comunicação, que freqüentemente pode ser não-verbal, é um aspecto essencial do envolvimento terapêutico.

            O envolvimento pode incluir uma intervenção ativa do terapeuta na facilitação da remoção de repressões e na ativação de respostas que estejam inibidas, tais como gritar por socorro ou ir à luta. Expressões posteriores de envolvimento é a revelação por parte do terapeuta de suas reações internas ou mostrar compaixão pelo sofrimento do cliente. Isso pode incluir responder a necessidades desenvolvimentais precoces de uma forma que simbolicamente represente preenchimento das mesmas, mas o objetivo de uma terapia orientada ao contato não é a satisfação de necessidades arcaicas. Essa é uma tarefa desnecessária e impossível. Ao contrário, o objetivo é a dissolução de defesas fixadas de interrupção de contato que interferem com a satisfação de necessidades atuais e com o contato pleno com o self e com os outros na vida atual. Isso é freqüentemente obtido trabalhando-se dentro da transferência para permitir que o conflito intra-psíquico seja expresso dentro da relação terapêutica e que seja respondido com transações empáticas e apropriadas.

            Uma psicoterapia orientada ao contato, através da investigação, sintonia e envolvimento, responde às atuais necessidades do cliente de uma relação emocionalmente nutridora que seja reparadora e sustentada. O objetivo desse tipo de terapia é a integração das experiências aflitivas e uma reorganização intra-psíquica das crenças do cliente sobre si mesmo, os outros e sobre qualidade de vida.

           Conclusão

           O contato facilita a dissolução das defesas e a integração das partes alienadas da personalidade. Através do contato, as experiências alienadas, inconscientes e mal resolvidas passam a fazer parte de um self integrado e coeso. Em psicoterapia integrativa o conceito de contato é a base teórica de onde derivam as intervenções clínicas. Transferência, regressão de estados de ego, ativação da influência intra-psíquica da introjeção, a presença de mecanismos de defesa, são todas compreendidas como deficiências dos contatos anteriores. As quatro dimensões do funcionamento humano – afetivo, comportamental, cognitivo e psicológico – são um guia importante para determinar onde alguém está aberto ou fechado ao contato e, então, de nossa orientação terapêutica. Um dos principais objetivos da Psicoterapia Integrativa é usar a relação cliente-terapeuta – a habilidade de criar pleno contato no presente – como a pedra de toque para relações mais saudáveis com outras pessoas e um senso de self satisfatório. Com a integração se torna possível para a pessoa encarar cada momento com espontaneidade e flexibilidade na solução dos problemas da vida e nos relacionamentos.

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