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Rubens Mário Mazzini Rodrigues, MD
Médico Psiquiatra - Porto Alegre - RS
- CREMERS 9760
A EXPERIÊNCIA TERAPÊUTICA
Rubens Mário Mazzini
Rodrigues*
"Não depositem fé nas
tradições, ainda que tenham sido feitas por muitas gerações e em muitos
países. Não acreditem em alguma coisa porque muitos a repetem. Não
aceitem alguma coisa devido à autoridade de alguns sábios da
antiguidade, nem porque a afirmativa está nos livros. Nunca acreditem
em coisa alguma somente porque a probabilidade está a seu favor. Não
acreditem no que vocês mesmos imaginaram ter sido inspirado por algum
Deus. Em nada acreditem simplesmente pela autoridade de seus
professores ou sacerdotes. Após exame, acreditem no que vocês mesmos
testaram e consideraram razoável, que esteja em conformidade com o seu
bem-estar e o dos outros."
Sidartha Gauthama (O Budha)
Nossa
personalidade é resultante da interação de nossas características
constitucionais inatas com o meio em que vivemos e nos desenvolvemos. As
características inatas não podem ser mudadas, podem ser reguladas. Esta
regulagem será feita ao longo da vida através de sucessivas experiências,
vivências, que o meio nos oportuniza. Além disso, a experiência nos
acrescenta gradativamente idéias, regras, impressões, crenças, convicções,
a nosso respeito e a respeito dos outros. Tudo isto, como já vimos, dá
forma às diferentes instâncias do Ego (Pai, Adulto, Criança ) e a padrões
transacionais, bem como ao roteiro de vida e a posição existencial. Isto
tudo se sintetiza em uma auto-imagem e em uma imagem básica que formamos
sobre os outros, além de imagens específicas que formamos de cada pessoa
com quem temos um encontro. Estas experiências também vão determinar a
nossa maneira de sentir, através de uma regulagem de nossa sensibilidade
básica, a qual pode, assim, ser aumentada, diminuída, desenvolvida ou
bloqueada. O mesmo ocorre com as nossas capacidades de percepção, de
raciocínio lógico, de ação e reação, de criatividade, aprendizado, enfim,
todo o conjunto de recursos pessoais que dispomos como ser humano.
A única forma de alterar
o resultado disto é através de novas vivências e experiências. As
psicoterapias são técnicas desenvolvidas para ajudar as pessoas a fazerem
uma reavaliação da própria personalidade, a promoverem as transformações
desejadas e a reformarem os eventuais aspectos indesejados encontrados.
Para isto, é necessário que sejam criadas algumas condições básicas, que
vão sendo alcançadas de forma gradativa, simultânea e progressiva, através
do processo terapêutico, que nada mais é do que um processo de busca
assistida de desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal. O terapeuta é
alguém treinado para o papel de assistente, no sentido de dar assistência e
orientação através de seus conhecimentos teóricos e práticos nas diversas
técnicas existentes. A psicoterapia age basicamente através de proporcionar
ao cliente novas experiências. Fazer psicoterapia é, portanto, experimentar
um tipo de vivência essencialmente diferente das que se costuma ter no meio
familiar e no meio social em geral.
A psicoterapia faz parte
de uma relação individual entre cliente e terapeuta que difere das relações
correntes em alguns aspectos fundamentais. O terapeuta é, por assim dizer,
um interlocutor qualificado, diferenciado do interlocutor comum (pai, mãe,
irmão, colega, chefe, empregado, patrão, etc. ). Esta diferença se verifica
no tipo de atitude que o terapeuta assume em relação ao cliente. Esta
atitude se caracteriza mais pelo que o terapeuta deixa de fazer do que por
aquilo que faz. Tal como:
-
Não julga, o acerto ou
correção dos atos do cliente, os méritos, a qualidade moral de seus atos
e pensamentos. Antes ajuda o mesmo a fazer um auto-julgamento, a
reavaliar e aperfeiçoar sua própria capacidade de discernimento.
-
Não critica, não acusa,
não condena os atos do cliente (conseqüência direta da atitude de não
julgar ).
-
Não aconselha, não dá
opinião ou palpite direto sobre o que o cliente deve ou não fazer em
relação às situações que enfrenta, apenas assessora o processo de tomada
de decisão auxiliando-o a se tornar mais capaz de decidir com segurança e
a assumir a responsabilidade pelas próprias decisões.
-
Não comanda, não tenta
controlar ou dirigir a vida do cliente ditando o que é certo ou errado,
evitando o papel de condutor ou ditador ao qual o cliente está habituado
nas relações sociais comuns, as quais freqüentemente visam alguma forma
de dominação: pais-filho, marido-mulher, patrão-empregado, padre-fiel,
etc. Dessa forma, evita funcionar como um mero substituto das demais
figuras de autoridade.
-
Não consola, não vê o
cliente como coitado que precisa de piedade alheia, antes procura
ajudá-lo a reagir com suas próprias forças e, assim, criar confiança nos
próprios recursos. Isto não implica em que deixe de usar conduta de
ajuda, em situações com as quais o paciente esteja circunstancial ou
temporariamente incapacitado, seja através de apoio psicológico ou uso de
medicamentos criteriosamente indicados.
-
Não presta favores, no
sentido de não fazer pelo paciente aquilo que ele seja capaz de fazer por
si mesmo, mesmo que ele, eventualmente, julgue-se incapaz. Assim sendo, o
terapeuta apenas presta um serviço ao cliente, e o ajuda a buscar e
exigir os próprios direitos, sem ter de pedir "favores".
-
Não faz cobranças, ou
seja, não exige melhora ou mudanças, quem quer mudar é o cliente, o qual
não busca o terapeuta para sofrer mais cobranças, mas para ajudá-lo a se
conhecer e a compreender o seu modo de ser, seu comportamento, suas
escolhas e suas motivações, portanto, é cliente que dá o ritmo e os
limites das mudanças. Ritmo esse que deve ser respeitado pelo terapeuta.
O cliente, normalmente, já tem pessoas de sobra na família e no trabalho
(além da própria consciência/superego/pai crítico interior) para lhe
fazer cobranças. Com esta atitude, o terapeuta deixa o cliente livre para
poder ser, ou vir a ser, o que realmente é, e não o que outras pessoas -
inclusive o terapeuta - desejam que ele seja. As únicas cobranças
legítimas que o terapeuta faz é quanto ao comparecimento às consultas
assumidas, uso adequado dos medicamentos prescritos, cumprimento do
horário e pagamento dos honorários.
-
Não assume culpas, no
sentido de que não se sente responsável pelas dificuldades e insucessos
do cliente naquilo que depende só dele mesmo, não o vê como vítima mas
como responsável e capaz de fazer algo para modificar as coisas a seu
favor. Isto, naturalmente, não significa insensibilidade em relação ao
sofrimento do cliente, pelo contrário, o terapeuta deve ser capaz de
empatia, ou seja, de sentir simpatia pelas dificuldades e desejos do
paciente para poder ajudá-lo de forma efetiva. E, naturalmente, o
terapeuta é responsável por realizar bem o seu trabalho, para o qual deve
estar devidamente habilitado, de forma ética, séria e competente.
-
Não age como salvador
(conseqüência do fato de não se sentir culpado ou responsável), assim,
pode se colocar ao lado do Ego Adulto do cliente (e não à frente de sua
Criança Submissa) para ajudá-lo a encontrar as atitudes e ações
necessárias à solução de seus problemas.
Ao se pautar por estes princípios o terapeuta proporciona ao cliente uma
experiência sui generis, uma relação de crescimento na qual, não
raro pela primeira vez, este vai poder ver a si mesmo como realmente é, sem
as interferências habituais das relações familiares e sociais. Neste
processo, a cada encontro com o terapeuta, o cliente vai adquirindo uma
nova concepção de si mesmo, vai incrementando ou recuperando gradativamente
sua auto-estima e obtendo reconhecimento de sua individualidade única,
sentindo-se livre para criar sua identidade, tendo favorecido o seu
processo de individualização ao diminuir o ruído provocado pelos
interlocutores dominadores, manipuladores, críticos e opressores.
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A Experiência Terapêutica de Grupo
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Rubens Mário Mazzini Rodrigues
Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta
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