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O ESPÍRITO DE NATAL

          A idéia de que o Natal acabou se transformando em uma "festa de consumo", dominada por interesses comerciais e enaltecimento de valores materiais, já se tornou lugar comum há bastante tempo.

          Mas, será que é assim mesmo?

          Vamos examinar isso à luz das origens e motivações históricas do que, atualmente, para nós, é essa festividade chamada modernamente de "Natal".

          O final de dezembro tem assumido um significado especial para a humanidade ao longo das eras. O dia 21 de dezenbro, data em que ocorre  o Solstício de Inverno no hemisfério Norte, o dia mais longo do ano, sempre foi o ponto alto do calendário de muitas culturas pré-cristãs, ditas pagãs. Era comum haverem festividades nessa época, associadas a ritos de fertilidade. Essa época foi associada ao nascimento de muitos deuses de outras religiões, inclusive Dionísio (Baco para os romanos), que, casualmente ou não também era filho de uma mortal com um Deus: Zeus e Sêmele. Após a cristianização da Europa muitas dessas festividades foram se convertendo em festas folclóricas ou associadas a festas de Santos específicos e, finalmente, no ano de 336 DC, sob os auspícios do Imperador Constantino, recém convertido ao cristianismo, o dia 25 foi adotado pela cristandade como a data oficial do nascimento de Jesus. Uma das finalidades da escolha dessa data foi justamente incentivar ao conversão dos pagãos ao cristianismo.

          Mais recentemente, no mundo Ocidental, a festa foi dominada por Santa Claus (São Nicolau), que ficou mais conhecido como "Papai Noel", o "bom velhinho", importado do mito nórdico, que mora no Pólo Norte, onde mantém uma fábrica de brinquedos com ajuda de uma equipe de Duendes e Elfos.

          As festividades de fim de ano sempre foram associadas a ritos de morte e renascimento, em função do fim e início de um novo ciclo solar. Tradicionalmente, a Festa do Solstício, era uma festa familiar, na qual havia o hábito da troca de dádivas entre as pessoas. Seja como for, a festa sempre teve uma conotação religiosa ou espiritual, fruto de uma associação intuitiva feita pelas culturas de todas as épocas, baseadas na observação dos movimentos dos astros, em especial do movimento da Terra em relação ao Sol, que cria as estações. No dia do solstício, do latim solsticium (Sol+sticium), que significa "Sol estático" - pois, nesse dia o Sol demora mais a nascer - os povos antigos tinham a impressão de que o Sol havia parado e surgia o medo de que o Sol não nascesse de novo, ou que estivesse "morto", quando o Sol finalmente reaparecia, com uma hora de atraso, era como se tivesse "renascido", dando origem à uma reação de alegria e euforia pelo ressurgimento do Astro Rei - em muitas culturas antigas visto como um Deus - que culminava com uma grande comemoração e confraternização.

          Para os povos mais antigos o Sol era tido como sendo o "Filho da Luz" e a Luz era considerada uma manifestação direta de Deus, assim, o solstício era visto como se Deus estivesse abandonando os mortais ou estivesse ocorrendo o fim do mundo, pois, sem a Luz do Sol, certamente todos morreriam. A grande euforia que redundava do ressurgimento do Sol faziam com que todos ficasse felizes e se abraçassem, manifestando grande emoção por essa dádiva divina, que era compartilhada por todos, que, então, davam o melhor de si uns para os outros, inclusive presentes de coisas valiosas, como alimentos, vestes e outro utencílios que cada um produzia, sendo realizado um grande banquete no qual os alimentos, produtos da colheita e da caça, pães, frutos e carnes, eram então compartilhados por todos. Esse banquete, atualmente, para nós cristãos ocidentais adotou a forma de "Ceia de Natal", que faz alusão também à "Última Ceia", em que Jesus compartilha o pão com seus apóstolos.

          Na sociedade cristã ocidental, os ritos de morte e renascimento foram deslocados do ocaso e ressurgimento do Sol como fonte de VIDA e LUZ, para a morte e renascimento de Jesus, como fontde de VIDA e LUZ espiratual, na forma de AMOR, em especial do Amor dedicado ao próximo, com contentamento e alegria pelo próprio valor da vida e da presença do outro.

          Então, a essência do Espírito de Natal é o Espírito da Dádiva, através da qual, cada um procura dar o melhor de si para os outros. Obviamente, do ponto de vista espiritual, o melhor que cada um tem a dar são gestos e atitudes baseado em sentimentos de fraternidade, caridade, generosidade, cordialidade, perdão, gratidão e outras expressões do AMOR.

          Uma das recentes descobertas da neurociência nos ajuda a compreender como esse fenômeno se expressa de forma biológica: os Neurônios Espelho. Hoje sabemos que esses neurônios, entre outras funções - que envolvem desde o aprendizado (por imitação ou identificação) até a formação de laços afetivos - são responsáveis pelo sentimento que chamamos de EMPATIA, o qual permite que espelhemos os sentimentos do outro, de modo que fazer os outros felizes também nos torna felizes, pois ao perceber a alegria nos outros nossos  neurônios espelho refletem essa alegria em nós. Os neurônios espelho, dessa forma, favorecem a sociabilidade humana e também estão envolvidos na geração do sentimento de religiosidade e espiritualidade. Por isso costumamos nos reunir em festividades, celebrações, danças e rituais, pois isso aumenta nosso sentimento de UNIÃO e INTEGRAÇÃO com os outros, uma emoção que é extremamente gratificante e significativa, que nos leva a querer vivenciar de novo as situações capazes de despertar isso em nós e a esperar por elas com grande expectativa, sendo que, os preparativos fazem parte do ritual, por isso começamos a preparar a Festa de Natal com dias, semanas ou até meses de antecedência.

          É natural que em nossa sociedade atual, na qual os bens de consumo são vistos como o melhor que podemos produzir e oferecer, as dádivas sejam materializadas nele e que, em consequência, na época de Natal exista um comércio exacerbado de bens. O importante é que a maioria desses bens estão sendo adquiridos para serem oferecidos ao outro como dádiva. Nessa época as pessoas gastam boa parte do dinheiro que obtiveram com seu trabalho durante o ano para adquirir dádivas a serem compartilhadas com os outros, o que não deixa de ser um gesto de Amor ao Próximo. O aumento das vendas do comércio, por outro lado, também gera mais trabalho, mais empregos, mais impostos que também se revertem em benefícios para todos.

          É claro que seria bom se esses valores fossem cultivados o ano inteiro e não apenas uma vez por ano a cada ciclo de morte e renascimento, mas, o fato de eles serem cultivados de modo especial uma vez por ano não deixa de ser uma forma de nos relembrar a importância desses valores em nossas vidas ao longo de todo o tempo e de que a humanidade é capaz de expressar suas melhores qualidades.

          De forma atípica, nesse final do ciclo solar do ano de 2020, estamos vivenciando uma situação de pandemia que nos obriga a manter um distanciamento social, que torna difícil a comemoração nos moldes a que estamos acostumados. No entanto, é preciso reconhecer que o distanciamento é também uma forma de manifestação de Amor ao Próximo, pois tem a finalidade de nos protegermos mutuamente, ou seja, proteger a VIDA, a maior de todas as DÁDIVAS.

          Como já dizia Wilhem Reich, em uma frase que não canso de citar: "Bombas não mudarão o mundo, colocar em ação as qualidades sensíveis mais profundas do ser humano, o mudará".

      FELIZ NATAL!

          

Rubens Mário Mazzini Rodrigues, MD

Médico Psiquiatra - Porto Alegre - RS - CREMERS 9760
A Psiquiatria para mim, mais do que uma profissão, é um caminho para a realização de meu propósito de vida, que é a dedicação à tarefa de buscar, encontrar e ajudar a desenvolver meios de elevar o nível de consciência da humanidade em geral e ajudar a melhorar a qualidade de vida pessoal e dos relacionamentos humanos, de modo a favorecer o desenvolvimento de uma sociedade mais capaz de valorizar e promover a vida, promover a dignidade humana e, assim, contribuir para incrementar as possibilidades de satisfação, felicidade e realização para todo ser humano. Na minha visão a Psiquiatria vai além de apenas diagnosticar e tratar doenças através de uma abordagem exclusivamente organicista e farmacológica. Procuro praticar a Psiquiatria integrada com a Psicoterapia e quaisquer outras técnicas e práticas que possam contribuir para a promoção da saúde e qualidade de vida. A boa saúde mental é decorrência de um cuidado geral e integrado pela vida em todos os aspectos: orgânico, mental, emocional, existencial e espiritual.
A PSIQUIATRIA é o ramo da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como Depressão, Transtornos de Ansiedade, Transtorno Bipolar, Esquizofrenia entre outros. A palavra Psiquiatria deriva do Grego e quer dizer "arte de curar a alma".



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