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ÁLCOOL E MEDICAÇÃO PSIQUIÁTRICA - UMA PÉSSIMA COMBINAÇÃO

          Frequentemente as pessoas que precisam fazer uso de medicação psiquiátrica me perguntam se podem fazer uso de cerveja, vinho ou outras bebidas alcoólicas ao mesmo tempo, apesar de a resposta ser quase óbvia e apesar de isso estar claramente avisado na bula de todos os medicamentos psiquiátricos, esse alerta, lamentavelmente, costuma ser subestimado pela maioria. 

          Por quê, então, a dúvida permanece?

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          A meu ver há várias razões (mitos) para isso, algumas de motivação individual e outras de cunho social e cultural:

  •  As pessoas que estão acostumadas a fazer uso de bebidas alcoólicas por qualquer motivo não querem abrir mão do prazer associado ao uso das mesmas. 
  •  Muitas pessoas fazem uso de álcool como se fosse uma espécie de medicamento, seja para aliviar a tensão e a ansiedade, seja para se sentir mais alegre e animadas em uma festa ou para contornar a timidez.
  •  Não é raro pessoas usarem as bebidas alcoólicas, especialmente o vinho, para manejar a insônia.
  •  Para os homens, de modo geral, o uso de bebida alcoólica está associado à masculinidade, havendo uma crença de que quanto mais álcool maior a "macheza".
  •  Há uma pressão muito grande do grupo social, especialmente em situações festivas, para se fazer uso de bebidas alcoólicas. Já se tornou um traço cultural a associação entre alegria e bebida alcoólica, tanto que a própria publicidade explora esse aspecto.

          Todas essas razões são no entanto mais MITOS do que verdades. Um MITO é algo  que faz parte de uma cultura e nos quais a maioria das pessoas acredita tornando-se uma uma verdade quase inquestionável. 

          Um desses MITOS é manifestado em uma questão muito comumumente colocada: "Qual o problema? Todo mundo bebe". Não é verdade que "todo mundo bebe", pelo menos 20% das pessoas nunca fazem uso de bebida alcoólica simplesmente porque não se sentem bem com elas. Esse não se sentir bem sob efeito do ácool é de fato um sinal de boa saúde mental. As motivações para o uso de álcool, na verdade, costumam estar associadas a algum sintoma maior ou menor de algum tipo de doença mental ou sofrimento emocional.

          Por exemplo:

  •  O prazer da intoxicação alcoólica está associado a algum grau de infelicidade e insatifação com a vida, que é compensado pelos efeitos do álcool (isso vale para todas as demais drogas).
  •  O uso para aliviar a tensão e ansiedade já é uma evidência de que a pessoa já está sofrendo em algum grau de sintomas de má saúde mental. O álcool não apenas não resolve esses problemas como se torna um agravante.
  •  A timidez, por exemplo, está frequentemente associada à Fobia Social, que se não for devidamente tratata, vai se perpetuar como um Transtorno de Ansiedade por toda a vida.
  •  A insônia é um sintoma que está presente na quase totalidade das doenças mentais e é um sintoma muito comum de algum sofrimento emocional passageiro ou permanente. O uso de álcool para manejar a insônia pode levar ao agravamento de uma depressão ou à dependência do álcool.
  •  O uso da bebida para exaltar a masculinidade na verdade esconde uma insegurança em relação à própria mesculinidade, que faz com que o indivíduo precise fazer "demonstrações" de macheza, como é o ato de beber, especialmente em grande quantidade.
  •  A pressão social para o uso é reveladora de uma má qualidade de vida e de saúde mental coletiva que permeia toda a sociedade, levando à necessidade do uso de bebidas alcoólicas como paliativo.

          O que torna isso ainda mais grave é que o álcool não apenas mascara os sintomas de alguma doença mental como tende a agravá-los com o tempo, sendo que, muitas vezes, esse uso leva a algum grau de dependência. Quase sempre o alcoolismo (dependência de álcool) é causado por um desses fatores,  Por essas razões o álcool é na verdade um mau remédio, que causa mais dano do que qualquer benefício passageiro que possa oferecer.

          Os próprios médicos, de modo geral, têm alguma parcela de culpa ou responsabilidade em relação a isso. Pois, além de muitos deles também fazerem o chamado "uso social" de bebidas alcoólicas, considerado como "normal" do ponto de vista cultural, acham mais fácil consentir que os pacientes façam uso "moderado" de álcool do que tentar dissuadi-los de usar e explicar as razões para isso, coisa que pode até fazer com que o paciente procure outro médico que seja mais condescendente ou "liberal" em relação ao uso de álcool e drogas. De modo geral, quem não usa ou se posiciona contra o uso de bebidas alcoólicas acaba sendo visto como um "chato" ou "desmancha prazeres", quando, na realidade, é exatamente ao contrário; quem faz uso de bebidas alcoólicas é que frequentemente se torna uma pessoa chata ou inconveniente, que muitas vezes acaba com a alegria e prazer de uma reunião social ou liquida com uma festa, muitas vezes com uma situação vexatória ou até mesmo de forma trágica, Considero uma verdadeira tragédia social o fato de que a mitologia do álcool, além de estar profundamente arraigada na nossa cultura, se faz fortemente presente inclusive entre os membros da classe médica.

          Existe um alto índice de associação entre álcool e transtornos de ansiedade e depressão, em especial o Transtorno Bipolar. Cerca de 30 % dos pacientes que desenvolvem alcoolismo são portadores de Transtorno Bipolar, a ponto de muitas vezes não se saber o quem veio primeiro, o abuso de álcool ou o transtorno de humor. O uso de álcool agrava sobremaneira a evolução do transtorno Bipolar, pois o álcool é um desestabilizador do humor, podendo causar tanto euforia quanto depressão, fazendo portanto o estado de humor da pessoa oscilar mais ainda, tendo um efeito exatamente contrário ao dos medicamentos usados no tratamento: os estabilizadore do humor.

          Além disso há uma vasta gama de problemas de saúde, tanto física quanto mental, que podem ser causados ou agravados pelo álcool, além de inúmeros problemas de ordem social.

          As doenças físicas que podem ser causadas ou agravadas pelo álcool são inúmeras, entre elas: gastrite, esofagite, cirrose, pancreative, colecistite, diabete, hipertensão, cardiopatia isquêmica, miocardiopatia alcoólica (uma doença cardáica exclusiva de quem usa álcool), câncer de boca, laringe, esôfago, estômago e intestino (especialmente quando associado ao tabagismo), déficit cognitivo e demência alcoólica (semelhante ao Alzheimer), acidente vascular cerebral, etc.

          Quanto as doenças mentais, TODAS elas são agravadas pelo uso de álcool e em muitas delas o álcool funciona como fator desencadeante e causador. Muitos jovens que iniciam o uso de álcool precocemente na adolescência acabam, por exemplo, apresentando Transtorno de Déficit de Atenção (TDA), devido ao dano que o álcool causa no cérebro prejudicando o desenvolvimento do lóbo pré-frontal, essencial para os processos de atenção, concentração e memória. Existe um risco entre 16 a 30% de uma pessoa que sofre de depressão vir também a adquirir dependência de álcool.

          A mistura de bebidas alcoólicas com medicações psiquiátricas possuem um potencial de dano ainda maior, pois, além de prejudicar o tratamento, a associação pode potencializar todos os efeitos colaterais dos medicamentos e trazer alguns efeitos extras. Um recente estudo publicado na revista Neurology, por exemplo, demonstra que o uso de álcool associado aos antidepressivos traz um aumento de 10 vezes no risco de acidente vascular cerebral (AVC) além de aumentar seriamente o risco de convulsões. Em função disso, o uso de antidepressivos enquanto a pessoa continua fazendo uso de álcool não apenas é ineficiente como traz riscos adicionais. Portanto, antes de tratar a depressão é essencial que a pessoa pare de consumir álcool.

          Alguns sintomas associados ao uso de álcool e medicamentos icluem:

  • Náuseas e vômitos.
  • Cefaleias (dor-de-cabeça e enxaqueca)
  • Tontura
  • Sonolência excessiva diurna
  • Desmaios
  • Alterações na pressão arterial (hipotensão ou hipertensão)
  • Alterações do comportamento (impulsividade, irritabilidade, valentia e agressividade)
  • Diminuição dos reflexos e perda da coordenação motora
  • Diminuição da capacidade de atenção, concentração, aprendizado, raciocínio e solução de problemas.

          Um dos piores perigos é a associação de álcool com benzodiazepínicos, mais conhecidos como "tarja preta", medicamentos muito usados no tratamento da ansiedade e insônia, que por si só podem causar efeitos colaterais semelhantes aos do álcool e que, portanto, são potencializados pelo uso de álcool. Essa associação é responsável por muitos acidentes de todo tipo, especialmente de automóvel. Isso acontece porque o álcool e os benzodiazepínicos possuem o mesmo mecanismo de ação, ambos atuam sobre o sistema gabaérgico, mediado por um  neurotransmissor chamado GABA.

          Danos de ordem social:

  • Aumento de acidentes de trânsito e de todos os tipos (quedas, acidentes do trabalho, etc).
  • Aumento do risco de violência doméstica 
  • Aumento do risco de abusos sexual
  • Aumento do risco de agressão com dano corporal
  • Aumemto do risco de homicídio
  • Aumento do risco de suicídio

          O álcool é o maior fator de risco isolado para todos esses eventos.

          Para complicar um pouco mais, o álcool também é uma grande causa de perda de emprego e de desemprego, além de aposentadorias precoces por invalidez causada por alguma doença relacionada ao uso de álcool.

          Isso nos leva a conclusão inevitável de que o álcool é uma das maiores causas de infelicidade e desgraça da humanidade. Muitas das quais poderiam ser evitadas apenas eliminanto o uso de álcool da vida das pessoas. O álcool é exclente para ser usado como produto de limpeza e como combustível, mas, colocá-lo para dentro do orgnanismo é sinônimo de sofrimento, doença, tragédia e morte precoce. Por esses motivos, a prevenção do uso e abuso do álcool e drogas tem sido uma das maiores preocupações na minha atuação como psiquiatra, especialmente na área da saúde pública.

          Na próxima vez que algum amigo perguntar sobre o uso de álcool e medicação ofereça-lhe a leitura desse artigo.


Referências:

Why is it bad to mix antidepressants and alcohol?

Treatment of Depression in Patients With Alcohol or Other Drug Dependence

Alcohol and rapid antidepressants have same effects on the brain

Rethinking the Use of Antidepressants to Treat Alcohol Use 

Can I mix Zoloft and alcohol? 

Using Alcohol in Conjunction with Antidepressant Drugs 

Alcohol and Nervous System

 


Rubens Mario Mazzini Rodrigues - Doctoralia.com.br

Rubens Mário Mazzini Rodrigues, MD

Médico Psiquiatra - Porto Alegre - RS - CREMERS 9760
A Psiquiatria para mim, mais do que uma profissão, é um caminho para a realização de meu propósito de vida, que é a dedicação à tarefa de buscar, encontrar e ajudar a desenvolver meios de elevar o nível de consciência da humanidade em geral e ajudar a melhorar a qualidade de vida pessoal e dos relacionamentos humanos, de modo a favorecer o desenvolvimento de uma sociedade mais capaz de valorizar e promover a vida, promover a dignidade humana e, assim, contribuir para incrementar as possibilidades de satisfação, felicidade e realização para todo ser humano. Na minha visão a Psiquiatria vai além de apenas diagnosticar e tratar doenças através de uma abordagem exclusivamente organicista e farmacológica. Procuro praticar a Psiquiatria integrada com a Psicoterapia e quaisquer outras técnicas e práticas que possam contribuir para a promoção da saúde e qualidade de vida. A boa saúde mental é decorrência de um cuidado geral e integrado pela vida em todos os aspectos: orgânico, mental, emocional, existencial e espiritual.
A PSIQUIATRIA é o ramo da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como Depressão, Transtornos de Ansiedade, Transtorno Bipolar, Esquizofrenia entre outros. A palavra Psiquiatria deriva do Grego e quer dizer "arte de curar a alma".



Rubens Mario Mazzini Rodrigues - Doctoralia.com.br

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